Maria Ivone Vairinho e Poetas Amigos

Agosto 23 2009

                Reescrevo palavras debruçadas

Do cristalino das pupilas..........

Enchi-me de ar e de gás

                 Subi ao sabor do vento

Na pista do arco-íris

Mantive quanto pude

A energia

O balão

A força

Sentia-me papagaio de papel

E subia

Em sussurros de pôr de sol

Para amanhecer

Num instante

Em que a Primavera despertava

E o frio do Inverno derretia

Eras meu irmão e eu amava-te

Com a decisão de um duende

Guardião de ninhos

Em nome dos espíritos da floresta

Eras minha irmã e eu amava-te

Nesse amansar de nervos

Quando os teus cabelos escorriam

Rebeldes por entre os meus dedos
 

 

Acreditávamos no nosso fogo

Planeávamos trios de amor

E partos colectivos

De outros mundos

Crianças a ensaiar sorrisos prematuros


 

Em rituais de Primavera

A quebrarem

Os cantos cinzentos do poder


 

E de meia dúzia

Passamos a dúzia e meia

Grávidos de esperança

Por acontecer

E crescemos em sérios carnavais de sensatez:

Os diplomas

Os olhares baços

Os lucros

De algumas vendas

A seriedade

Dos que descobriam cansaços

O conforto de........finalmente

Chegou a nossa vez................
 

 

Ficámos cada vez menos

A olhar as fogueiras

Entre a Primavera e o Verão

Esperando da Terra e do Fogo

Numa praia adormecida


 

Cantando em olhares brilhantes

O coro das marés

As angústias de pequenas ondas

Nos murmúrios solitários

Dos amigos perdidos

Que rumam a sós no escuro

E procuram fogueiras ainda acendidas

Em lareiras semeadas por aí .


 

Locais sagrados

Cóis de índios banidos

Para o quotidiano cinzento e duro

Longe dos outros

E de cada outro de mim


 


 

Teimo

Espero

Sonho

Com dúzias de olhares

Cintilantes na noite

 

Nos cemitérios índios

Um dia

O horizonte

A vida

As pradarias sem fim

 

José Manuel Veríssimo

Seixal Maio 2002

 

publicado por cantaresdoespirito às 23:44
editado por mariaivonevairinho em 29/08/2009 às 04:50

Agosto 23 2009

Rasguem-me as roupas da alma

esburaquem meu coração

retracem-me o pensamento

diluam meu ser no ácido da aridez

que hei-de obstinar-me em viver

na teimosia da permanência

força da resistência

por ser gente

por ser eu.


 

Mesmo que o escarninho mundo

não queira

e me atropele a navegação

dos pensamentos

hei-de seguir meu caminho

cuspindo todo o desdem

e até raiva

pelos iluminados desta civilização.

Podem todos atirar-se

à fúria do mundo competitivo

onde a liberdade é refém

dos esgares duma loucura

que se esconde no momento persuasivo

da vitória entre os outros;

os de mente dita escura

sem horizontes prodigiosos

muito para lá do além.


 

Deitem-me pois na valeta

torturem-me a carne rija

ou matem-me se quiserem

que o meu não é nota certa

ao vergar que se me exija.


 

Liliana Josué


 

publicado por cantaresdoespirito às 23:38
editado por mariaivonevairinho em 21/09/2009 às 13:43

Agosto 23 2009

A poesia é o processo catártico onde cada um desenrola o novelo da sua existência, mesmo sendo apresentada na segunda ou terceira pessoa.

Ela desfruta do papel onde é impressa tudo o que pode, expandindo-se, sentindo nele o seu terapeuta.

As imagens correm soltas na sua fantasia, como seres sem lógica ou constância; espécies estranhas, estrangeiras ou mesmo sombras errantes; populantes, aparentemente exteriores a si. Entranham-se de forma violenta ou adocicada no papel, ficando assim, a poesia a flutuar nesta imaginação real.

Mas o inverso não é menos verdadeiro; todos os seres e coisas que habitam este Universo, notáveis ou inotáveis, deslizam para o interior, na despreocupação dos inocentes, surgindo assim a poesia do mundo exterior, que se emaranha no nosso mundo interior.

O papel vai registando todas as emoções na fidelidade do terapeuta. E as sessões não acabam, há sempre outra e mais outra... e não acabam, nunca!

Depois de tanta pesquisa e confissões queremos resultados, afinal estamos a dar-nos a um estranho, na ponta duma caneta, fazendo de boca, e o nosso EU está lá, na eterna impossibilidade da resolução.

O terapeuta está atento e dedicado, captando o nosso subconsciente, na esperança muda de que o gratifiquemos com soluções que nem ele sabe dar.


 

 

 

Liliana Josué

 


 

publicado por cantaresdoespirito às 23:33
editado por mariaivonevairinho em 02/09/2009 às 22:09

Agosto 23 2009

(sátira)


Prender gente que lê, à poesia,
Como se prende?
Privadas as palavras da magia
Que faça num poema a melodia
Escrita confusa que só quem escreve entende,


Fazem ouvir no nosso dia a dia,
"Que pena... a poesia não se vende..."


É certo, escreve o poeta extasiado.
Mas há que ter no êxtase um controlo;
Senão irá ouvir, pobre coitado:
"É poeta... é tolo."


Joaquim Sustelo

publicado por tardesdeoutono às 11:57
editado por mariaivonevairinho em 25/08/2009 às 19:49

Este blogue está aberto aos co-autores e Poetas Amigos de Maria Ivone Vairinho
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